segunda-feira, 15 de junho de 2009

Psiquiatria e psicanálise

 
Recebi por email um comentário atribuído ao psiquiatra e psicanalista  Luiz Fernando Pinto da Bahia, que gostei e transcrevo:
Não deve haver confronto entre a psiquiatria e a psicanálise. Quando ele existe, há algo de errado nesta arena. Existem psiquiatras radicais e despreparados, que não conseguem enxergar além do brilho das suas pílulas doiradas. Mas, em contrapartida, existem psicanalistas que nada vislumbram além do complexo de Édipo e dos conceitos básicos lacanianos. Ambos estão estrondosamente equivocados na radicalização de suas posições. O psiquiatra não deve desconhecer o Ser Humano que ele diagnostica e medica; nem deve desvalorizar os seus sofrimentos, os seus conflitos, as histórias sofridas de vida que se escondem atrás dos sintomas que camuflam as verdades causticantes que habitam o inconsciente. Em contrapartida, os psicanalistas não podem desconhecer e recusar os progressos da neuro-biologia e da farmacologia. O que ocorre, muitas vezes, é um grande equivoco de profissionais radicais carentes ambos de bom senso e maturidade que trombam de frente, de maneira  infantil, a olhar apenas para o seu psico-umbigo ou seu fármaco-umbigo  com olhares caolhos. Este conflito impróprio e extemporâneo não é avalizado nem pela psiquiatria nem pela psicanálise. Trata-se apenas de um conflito entre profissionais despreparados para o exercício de sua função. Desnecessário dizer que a psiquiatria e a psicanálise  são recursos complementares que devem ser aplicados em interação na ajuda ao paciente que deles necessita.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sem o questionamento do sofrimento que mutila o cotidiano, a capacidade de autonomia e a subjetividade dos homens, a política, inclusive a revolucionária, torna-se mera abstração e instrumentalização.
Pierre Bourdieu

A continuidade da Luta Antimanicomial

Eu admiro o trabalho que tem sido feito pelo Brasil afora para resgatar condições dignas de atendimento em saúde mental, com respeito à cidadania e a subjetividade das pessoas com sofrimento psíquico. Compreendo que muitos colegas de Minas, por exemplo, não possam compreender a revolta e a amargura com que algumas pessoas se referem ao movimento antimanicomial.
O movimento antimanicomial implica não só na desativação dos manicômios, mas na construção de uma rede de atendimento em saúde mental que possibilite uma vida digna às pessoas portadoras de sofrimento psíquico. Porém, na cidade de São Paulo a situação do atendimento em saúde mental está tenebrosa e não se trata só da quantidade insuficiente de Caps: em várias regiões a rede de atendimento que existia foi desmantelada!!! Existem pacientes graves, com diversas internações anteriores não conseguem atendimento especializado. Há muitos pacientes graves pelas ruas e em albergues da cidade sem nenhum tratamento. Há muitos pacientes crônicos restritos aos domicílios sem tratamento adequado. O desespero de pacientes e familiares é desumano. E as pessoas responsáveis pelo desatendimento municipal falam em nome do movimento antimanicomial, o que me deixa indignada!
Não basta acabar com os hospícios. Não interessam os nomes. Se não houver respeito ao sofrimento, à dignidade humana e à subjetividade do paciente não adianta nem ser Caps. Lembrando que o verdadeiro movimento antimanicomial se caracteriza pelo acolhimento e pela inclusão social. Onde houver desqualificação, intolerância e segregação das pessoas e de suas falas, a compreensão do movimento antimanicomial está equivocada.
Precisamos passar a refutar todos aqueles que desqualificam o sofrimento e as colocações alheias, usando o nome do movimento antimanicomial para promoção pessoal e a serviço de interesses escusos. E continuarmos a lutar pela universalidade e pela integralidade do atendimento em saúde mental!

A questão dos manicômios

Dia 18 de maio é o dia da Luta Antimanicomial. É importante que hoje nos lembremos dos horrores vividos nos manicômios para fortalecer a continuidade desta luta, por isto transcrevo um trecho do depoimento de Maria Gabriela Curubeto Godoy postado no blog do ator Bruno Gagliasso:
Sou psiquiatra em Fortaleza, Ceará, e acompanhei o processo de intervenção da Casa de Repouso Guararapes, hospício da cidade de Sobral onde morreu o paciente Damião Ximenes, por maus tratos. O Brasil foi à corte internacional de Direitos Humanos da OEA para ser julgado pelo fato. [...] O Guararapes, fechado finalmente no ano de 2000, tinha celas fortes e situações esdrúxulas, mas comuns a outros hospícios. Os pacientes homens ficavam confinados a um pátio quase sem sombra à tarde (e olha que Sobral é quente), sem água para beber, sedentos, com 2 auxiliares de enfermagem que nem ligavam para eles. Uma bica d’água era aberta por uns 15 minutos às 3 da tarde e os pacientes desesperados se aglomeravam em torno dela tentando molhar-se e matar a sede. Enquanto isso, o dono do hospital tinha ironicamente um parque aquático cheio de piscinas ao lado do hospício… Os quartos não tinham luzes nem lençóis e desde o anoitecer os pacientes ficavam no escuro total, sendo devorados pelos mosquitos. O refeitório era imundo e os gatos comiam nas mesas com os pacientes.
Para mais informações sobre o julgamento do Brasil pela morte de Damião Ximenes Lopes na Corte Interamericana de Direitos Humanos acesse o site Justiça Global ou leia o artigo Reflexões sobre as vitórias do caso Damião Ximenes de André de Carvalho Ramos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Compartilhando...

Quando eu escrevi a minha carta aberta, achei que a dificuldade no atendimento de saúde mental fosse local, mas várias pessoas tem me escrito, se identificando com as minhas colocações.

Eu havia me distanciado do atendimento público desde 1998 (a não ser por amigos e colegas com quem mantive contato) e afinal me distanciei da própria psiquiatria (estou acabando uma especialização em homeopatia, mas o meu foco é mesmo a saúde mental –> homeopatia em saúde mental). É por causa deste distanciamento que agradeço no final da carta ao pessoal que me respaldou na volta à psiquiatria no serviço público.

Quando fui ver o emprego no Nasf, fui porque me identifiquei com a proposta (acho que o trabalho com agentes comunitários, quando bem feito, é demais!!!), pensando que seria contratada como homeopata e me contrataram como psiquiatra. Eu sempre gostei de psiquiatria, não renego, não; mas tenho tido umas experiências em homeopatia que são muito interessantes. Existem poucos estudos de homeopatia em pacientes psiquiátricos, e eu trabalho dentro da linha unicista, em que a medicação é totalmente personalizada. Preciso às vezes de algumas entrevistas para encontrar um caminho.... (Quer dizer, se saí do serviço público porque 15 minutos não eram suficientes, agora estou indo por um caminho em que até 2 horas às vezes é pouco!!! Mas é o caminho que eu amo.)

Quando topei entrar no Nasf como psiquiatra, tinha a esperança de tratar algumas pessoas com homeopatia, mas a situação na região estava tão grave que o pouco que fiz foi dentro da psiquiatria tradicional mesmo... Quem sabe um dia?...

Eu acho que pude escrever a carta como escrevi por ter estado fora este tempo. As pessoas que permaneceram trabalhando no serviço público dizem que se sentem assim também, mas viveram estas mudanças gradualmente e tem uma insatisfação que acabaram não nominando, ficou tão acumulada que virou tudo (e nada).

Recebi umas cartas tão boas. Tantas pessoas por aí tem experiências e questionamentos tão ricos. Senti que faltava um fórum onde as pessoas podessem se colocar melhor para que a saúde mental reencontre o seu caminho. Eu não me sinto com liberdade para socializar o conteúdo das cartas que me foram enviadas pessoalmente. Foi por isto que criei este blog, para trocarmos idéias e experiências a respeito das dificuldades e realizações nos atendimentos da rede de saúde mental, dos Nasfs (Núcleos de Apoio à Saúde da Família) e do PSF (Programa de Saúde da Família).

sábado, 2 de maio de 2009

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Universalidade e integralidade

Ao sair do Nasf Belenzinho fiz uma carta aberta aos amigos e colegas esclarecendo os meus motivos. Recebi algumas respostas gostosas e interessantes. Tem muita gente boa por aí, querendo que o PSF e os NASFs funcionem e valham a pena, e que exista um atendimento decente de saúde mental para todos. Universalidade e integralidade são as metas do SUS, como fazer valer?